Cap. I - Uma noite estrelada e a lua brilhante.
“O que deve haver por trás de todo esse manto negro que nos cerca? O que pode estar imerso nessas profundezas? Que mistérios estão só esperando por nós? Bom... não sei por que tento... creio que mesmo me fazendo tantas perguntas, ninguém as entenderá como eu gostaria...” Pensava uma garota que possuía os cabelos castanhos na altura de seus ombros, a pele rosada esbanjando saúde e os olhos cor de avelã, estava deitada sobre a grama de seu quintal olhando para o céu à noite. Áurea era o seu nome, ela possuía cerca de seus dezessete anos. Frequentava a escola ainda e almejava ser uma grande astrônoma. Na manhã seguinte, ela caminhara pelas ruas da vila.
A vila onde assistia era realmente pequena e se localizava próximo a um castelo medieval abandonado, este ficava na beira de um penhasco. O local era rodeado por árvores bastante altas, o que fazia o local parecer isolado do restante do mundo.
Áurea voltou de sua aula, era segunda-feira. Passara sua tarde realizando suas tarefas diárias e à noite, correra para o sótão de sua casa e montara seu telescópio. Sua casa era pouco afastada da cidade, por isso era perfeito para observar estrelas.
“As estrelas estão tão lindas hoje, porém... Algo está muito triste”. Pensou com um aperto em seu coração. Repentinamente, assim que afasta seu olhar do telescópio, nota uma flor, uma íris branca, em seus pés. Ela procurara por alguém olhando da sacada do sótão, porém não viu nada além de folhas, árvores e estrelas. A íris estava amarrada a um fragmento de pergaminho. Este dizia:
“Corra meteorito brilhante! Corra e encontre-se com seu ponto final, onde ficará eternamente unida com a terra firme. Corra e encontre o local onde esta fora retirada por um mero pecador. As flores esperam até meia noite.
Ass.: Um passado.”
Completamente confusa ela corre até sua mãe:
- Bom... Acho que só encontrará íris próximo ao castelo... mas... está tarde! – Nesse instante a porta bate, já era quase meia noite e Áurea saíra correndo.
Andando em meio aquela trilha que ligava a vila e o castelo Áurea começava a se arrepender, porém pensava que já andara o suficiente para desistir, então seguia em frente. Via um clarão ao longe, ela notava que era a luz da lua por entre a folhagem das árvores. Seguindo o caminho, via uma igreja gótica aos pedaços, porém, as íris haviam decorado tão bem que fizeram do local o mais belo já visto. Ao entrar, viu um anjo de pedra com uma de suas asas quebradas na parede, a lua inundava o ambiente com sua magia.
-Olha o que o universo trouxe a mim... Minha estrela cadente... Seu brilho chegou a mim... – Dizia um garoto alto, com cabelos pouco ondulados na altura de seus ombros, eram loiros e brilhavam com o luar. A voz do garoto era suave, porém sedutora. Ele usava uma máscara prateada em seu rosto e um manto negro que cobria todas as suas vestes, ele caminhou em direção à Áurea e ajoelhou-se na frente dela.
- Deixe-me te levar para ter um belo sonho... – Ele beijou-lhe a mão e ambos começaram a levitar, mais e mais alto. Em silêncio Áurea deixava-se levar. Sobrevoaram todo o castelo e o vilarejo, viram as ruínas da antiga sociedade medieval que residia ali, sobrevoaram uma bela cachoeira e uma enorme planície verde e então voltaram para o ponto de partida. Ela o olhara tentando entender o que acontecera, porém ele seu alguns passos para trás e sumira em meio à escuridão das sombras das ruínas do jardim do castelo.
Áurea caminhou até sua casa, estava relativamente confusa. tinha certeza do que vira, mas não saberia dizer se era realidade, quando seu celular a despertou, ela se levantara com um susto e batera a cabeça em seu telescópio. Ela ainda estava na sacada do sótão. “Foi tudo um sonho? Mas... Como?” Ela olha para a sua mão e vê uma flor branca – uma íris, “Como isto veio parar aqui?” Perguntava-se continuamente, estava consideravelmente confusa.
- Mãe... Você... Sabe onde posso encontrar íris? – Perguntou para saber se não havia apenas sonhado.
- Nessa época do ano, filha? Não faço a mínima ideia. – Respondeu surpreendida com a pergunta. – Ande logo ou vai se atrasar para a aula, mocinha!
Áurea não se conformava com o que havia acontecido, ela queria mais explicações. Quando uma voz ressoa em sua mente, era uma voz familiar, porém nunca havia a escutado...
“- Rápido, por aqui! Eu sei que está casada, mas...”
- Áurea! Acorde! – Disse o professor. – Uma moça do ensino médio não deve dormir na sala de aula!
Áurea ainda estava sem acreditar na noite passada. Chegando em sua casa ela deita em sua cama e põe as mãos sob o travesseiro quase chorando, havia se apaixonado por um garoto cujo não sabe sequer o nome. Ela move uma de suas mãos e sente algo, uma carta, abre e percebe uma letra diferente da noite passada.
“Encontre-me às onze da noite na ponte próxima ao castelo. Tenho um segredo antigo a contar-lhe, um segredo que deveria ter dito a ti antes,
naqueles dias...
Onde o sol e a lua dançavam em harmonia e as estrelas brincavam conosco....
Estarei te esperando...
Ass.: Alguém que te conheceu.”
Áurea amassa o bilhete com certa raiva e desespero.
- O que estão tentando fazer comigo?! Querem me deixar louca?! – Começou a chorar confusa.
As horas se passaram e ela saiu de casa em direção à ponte, estava claro o suficiente para não se precisar usar seque uma lanterna. Quando chegou lá uma jovem, aparentemente de sua idade, trajava uma capa marrom escuro, usava o capuz desta e segurava uma vela. Ela corre em direção a Áurea, que trajava vestido curto branco, solto e com laços nos ombros e uma fita em seu cabelo, também branca. A jovem segura a mão direita de Áurea e a puxa correndo para uma parte onde as sombras encobriam tudo.
- Ele ama você, é segredo, não lhe diga que eu disse a você! – A jovem encapuzada sai correndo e deixa a sua vela cair.
- Espere aí! Quem é você? – Era tarde demais para que ela a respondesse. A vela apagou-se, a lua brilhava, Áurea colhera uma íris, a cheirou e voltou para a sua casa.
“Acho que... Eu a conheço... Só não sei de onde... Mas mesmo assim... Obrigada... E... Garoto misterioso, quando poderei encontrá-lo novamente?”
Cap. II - A valsa das luas.
Os raios luminosos do sol adentravam pela janela do quarto de Áurea. Desde o encontro com a estranha conhecida o tempo se passara, agora era final de outono. O local deixava o verde e tornava-se dourado, como uma cidade um meio a uma floresta com árvores de folhas de ouro. Algumas destas já estavam nuas – sem folhas – e faziam sobre o chão um grande tapete macio feito do entrelaçar das folhas que caíam, a terra e a umidade do local.
Áurea levanta-se e caminha em direção ao banheiro, olhava o seu reflexo no espelho, lembra-se do que havia ocorrido há certo tempo...
“- Deixe-me te levar para ter um belo sonho...”
Ela abaixou sua cabeça e tentou esquecer o pensamento, porém não conseguia deixar de lembrar-se da jovem encapuzada. “Mas quem me disse que você me amava? Não recordo mais, era tarde da noite, eu ainda ouço a voz, mas não vejo os traços: ‘- Ele ama você, é segredo, não lhe diga que eu disse a você!”.
Neste instante, lágrimas percorriam por seu rosto deixando um rastro úmido. Ela abraçara a sim mesma apertara seus próprios braços com força e caíra ajoelhada no chão com suas mãos agora sobre os joelhos.
- Áurea! Venha comer seu desjejum! Já vamos sair! – Gritou a mãe da garota dos olhos cor de avelã. –E você não irá querer se atrasar para a festa!
- Es... estou indo! – Disse tentando esconder a voz do choro. Ela levanta-se e lava seu rosto. Mais tarde, desce as escadas trajando um vestido cor de sol de lã e com mangas longas, porém curto e com laços laranjas na gola alta e no pulso, por baixo, usava uma meia-calça branca, uma botina marrom claro e uma boina francesa marrom escuro.
Passado o desjejum, ela e sua mãe saíram de sua residência rumo ao centro da cidade, era um sábado especial, neste dia era feito o festival da calêndulas – pouco distante da cidade havia um grande exportador destas flores, que desabrochavam em abundância nesta época e, assim, o produtor realizava uma comemoração.
Andando por entre as barracas, que vendiam flores e arranjos florais alaranjados, Áurea estava maravilhada com o perfume que estava sendo carregado pela brisa gelada. Olha a sua frente e vê a fonte da cidade. Senta-se na borda e fica observando o movimente d’água quando vê uma flor flutuando em sua direção – era uma calêndula – ela a segura e olha para trás. Vê um garoto, ao longe, que possuí cabelos dourados e vestia uma capa negra como a noite sem a lua nem as estrelas, afastando-se rumo à saída do castelo. Ela anda atrás dele e quando percebe, já estava aos pés da ponte próxima ao castelo. Ele para no centro desta e estende uma de suas mãos segurando uma calêndula, oferecendo-a. Ele ainda usava uma máscara prateada.
“Isto não pode ser um sonho, é dia, pouco mais de nove da manhã, eu não estou sonhando.” Indagou a sim mesma tentando acreditar no que estava acontecendo, logo em seguida, caminhou em direção ao garoto, abriu a boca para tentar falar, mas teve medo que ele desaparecesse e que ele fosse um sonho apenas, então ficou em silêncio, apenas aceitou a calêndula oferecida. Ele ao vê-la pegando a flor, puxou-a pela mão e começou a correr. Ela somente o seguiu em silêncio. Não percebera, mas sua boina caíra na ponte.
Quando eles pararam de correr, estavam em um local correspondente ao salão de entrada do castelo em ruínas. Este possuía escadarias ao centro estava escuro. O mascarado a soltou e ficou estático a sua frente. Instantes após, ele leva a sua mão esquerda às suas costas e a direita a frente, abaixando-se.
- Deseja valsar? – Disse com sua voz melódica.
- Si-sim... – Ela correspondeu o gesto segurando a mão dele e fazendo uma reverência formal correspondente a dança.
Enquanto dançavam, vinha-lhe a mente imagens daquele salão em uma festa, como nos dias de glória do castelo. Via várias pessoas e sentia que as conhecia, via um rei velho olhando-a e olhava para o garoto com quem dançava, mas não conseguia ver o rosto. Encerrando a dança ele afasta-se alguns passos para trás e fita-a.
- Co-como poderei chamá-lo? – Perguntou em baixo tom de voz olhando a calêndula, ela estava envergonhada. O silêncio fez-se. Decidiu olhar para frente, mas lá não havia mais ninguém.
Áurea começou a chorar, estava inconformada, perguntava-se sempre o porquê ele desaparecia e aparecia assim. Olhou para baixo e com a visão ainda embaçada, culpa das lágrimas, viu uma carta. Pegou-a. Esta dizia:
“Ao meu meteorito dourado...
Perdoe-me por não poder passar o devido tempo contido, se o fizesse ele desconfiaria, mas... agora eu posso prometer-lhe que irei vê-la com mais frequência que antes, te digo que só o que eu quero é estar ao teu lado e passar o tempo que temos como antes, como deveria ser agora.
Irei vê-la em três luas, apenas espere por mim...
É uma promessa...”
Um sorriso tomou conta de seu rosto, ela caminhou rumo a sua casa com a carta guardada em seu bolso e a calêndula em sua mão.
Dois dias depois, ouve-se a campainha tocando, a mãe Áure atende, recebe a boina marrom de Áurea, logo em seguida ela a deixa sobre a cama. Quando a jovem chega de seu colégio, ela nota a boina sobre a cama, a pega surpresa e corre na direção de sua mãe:
- Mãe! Quando isto veio parar aqui? Eu pensei que havia perdido! – Disse exaltada.
- Um garoto que disse ser um conhecido seu que trouxe. – Respondeu sem entender tamanha animação.
- Como ele era?
- Bem... era loiro e alto. – Disse ainda sem compreendê-la.
- Qual era seu nome?
- Ah! Isso eu não sei! Ele disse que era seu conhecido! Você devera saber! - Respondeu a mãe levemente irritada.
Áurea desanimou-se, voltou ao seu quarto, quando abriu a porta notou um pedaço de pergaminho sobre a cama, correu na direção deste:
“Seja mais atenciosa...
Com carinho e até breve,
Ass.: Um passado...”
Ela apenas sorriu e sentiu o perfume de seu amado no pergaminho.
- Estarei te esperando... Três luas...
Continua...

